quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Deu treta no Congresso (Esse dia foi loko)

Foto: Gabriel Fabri


Por Gabriel Fabri


Enquanto éramos levados para fora do plenário, durante a tentativa de evacuar a galeria do parlamento, perguntei a um segurança da Câmara se o público de lá era "sempre assim". A resposta: "a oposição ficou mais atuante na plateia depois das eleições, mas em dez anos aqui, eu nunca vi algo como isso". 

Foi um dia que eu e as três estudantes de jornalismo que me acompanharam na visita ao Congresso Nacional, nessa terça-feira, não esqueceremos jamais. Observamos como começa uma votação que seria uma das mais importantes e mais comentadas do ano, a votação sobre o superávit primário, e só sobre isso eu já teria muito o que falar. Mas a noite foi marcada por momentos inesperados, sendo o ápice quando a atenção de todos os parlamentares se voltaram para a chamada "galeria", onde as pessoas podem assistir às sessões. 

Foto: Gabriel Fabri


Conseguimos autorização para entrar na galeria - excepcionalmente hoje, a entrada do público foi feita a partir de um sistema de  distribuição de senhas entre os partidos -  e observar a votação. Só isso, já foi um feito. Não é todo dia que você dá um zoom em sua câmera e vê o Sarney ou o Aécio, por exemplo. Mas tudo aquilo estava muito estranho.

Não sei como é em votações de menor apelo, mas pude perceber como funciona uma plenária. Ninguém chega e está minimamente suscetível a repensar o seu voto. Não há uma discussão e sim um show em que cada deputado ou senador tenta vender o seu discurso - para a imprensa, para o povo, não para quem está lá dentro. 

Olha o Aécio ai gente... (Foto: Gabriel Fabri)


Sessão aberta, começaram os protestos da oposição, que teve até críticas ao suposto "bolivarianismo" do Governo Dilma. A sala estava ainda meio vazia e quase ninguém, com exceção do Presidente da Câmara Renan Calheiros, parecia prestar atenção. Deputados e senadores se cumprimentavam, trocavam ideias, mexiam ao celular, como se nada importante estivesse acontecendo. 

A coisa foi logo esquentando. Ao invés de agilizar a votação dos vetos presidenciais, que deveriam ser votados antes da pauta principal, políticos como o Senador Aécio Neves e o deputado Jair Bolsonaro, como outros nomes do DEM e do PSDB, passaram a se manifestar a favor da liberação das galerias para o público. Detalhe: no café da manhã de hoje, descobri de um jornalista que o sistema de senhas adotado ontem é um procedimento comum na Congresso, no caso de votações mais quentes. Ou seja, a oposição estava jogando lenha na fogueira, pensando ou em aparecer, ou em retardar as votações.  

Os discursos para permitir o povo na casa do povo não combinam com esses políticos, que foram ovacionados pelos poucos cidadãos que conseguiram entrar para assistir. A plateia, entretanto, agiu para reforçar as convicções de quem queria o menos de gente possível lá dentro, no caso, os políticos da base governista: os gritos de "a casa é do povo", que no começo se limitava à cômica presença da senhora Ruth Gomes de Sá, militante do PSDB, se tornaram maiores a cada discurso para a liberação da galeria, e logo foram substituídos por uma versão do insuportável grito "o campeão voltou", que virou "o PT roubou". Bastou alguém do PT falar.

Renan Calheiros olhando a confusão (Foto: Gabriel Fabri)

A situação explodiu quando a Senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) defendeu o governo Dilma e, enquanto a plateia vaiava eufóricamente o discurso, foi chamada de "vagabunda". Sim, uma amostragem do que foram as recentes manifestações anti-Dilma estava presente hoje no Congresso e não foi nada elegante. 

Em seguida, a líder do PCdoB, deputada Jandira Feghali (RJ), exigiu, com razão, que os manifestantes fossem expulsos. Calheiros interrompeu a sessão e ordenou o evacuamento das galerias. 

Se não bastasse a oposição ter trancado as pautas, discutindo por duas horas se abririam as galerias ou não, alguns deputados ainda resolveram tentar sair bem na fita e subiram para as galerias correndo, para manter os "manifestantes" dentro da casa. Os presentes - que vergonha - cantaram o hino nacional e mandaram os parlamentares para Cuba. Então, foi só confusão: policiais da Câmara, manifestantes e alguns deputados, todos juntos na galeria, cercados por jornalistas. Gritos, correrias, agressões. Muito interessante de acompanhar. 

A minha raiva daquela turminha ridícula já havia passado. O que ficou foi a sensação de estar presenciando uma das sessões mais surpreendentes do ano. Nunca pensei que veria a imagem de todos os senadores e deputados olhando para cima. Hoje, o público virou o centro das atenções no Congresso.

Claro que não faltou um selfie após a sessão ser encerrada, sem que a galeria tivesse sido evacuada por inteira. E a nossa amiga Ana ainda teve a chance de correr atrás atrás do Feliciano e conseguir uma declaração exclusiva para a matéria dela, sobre a questão do aborto.     

Selfie no Congresso

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