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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

"Eu acho as pessoas o máximo, por mais filhos da puta que elas possam ser" - Marta Salomon

Por Gabriel Fabri

A conversa após o encontro com a jornalista Marta Salomon, que hoje é assessora especial do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, foi quase unânime: foi resgatada a esperança no jornalismo. 

Vomitei arco-íris a entrevista inteira. Olhinhos brilhando a cada  história que a jornalista contava, a cada dica compartilhada. Como não amar conversar com alguém que logo de cara vem com um discurso de que o jornalista é um empreendedor de políticas públicas?

Por que além da função de fiscalizar o poder, de desmistificar o senso comum, de desconfiar do que é dito e ir atrás do que não é dito, o jornalismo tem uma função social muito importante. Pode fazer cair uma política pública, ou fortalecê-la, apenas por meio da investigação jornalística. Como que o Bolsa Família impacta na vida das pessoas, por exemplo? Saber esse tipo de informação é essencial para a democracia e é também um meio de fiscalizar o governo, mesmo que a informação seja boa para ele. Afinal, jornalismo deve ir contra a manada. Mas isso não significa que deva ser oposição.  

O grande desafio de cobrir Brasília, mas não só, parece uma contradição: desconfie das suas fontes, mas mantenha uma relação de confiança com elas. Fora a delicadeza de andar sempre em um terreno pantanoso, onde há conflitos de interesses acirrados e complexos. Por fim, narrar de forma simples todas essas relações de poder.

Uma dica que Marta deu é a de aproveitar melhor os personagens. E fez isso com um exemplo muito fofo, relatado por ela em uma de suas matérias para o Estadão, para ficar marcado: em uma escola pública, os alunos decidiram pela condenação da educação pública no Brasil. Apenas uma, beneficiária do Bolsa Família, defendeu a escola pública. Com um único argumento: "é para todos". Chorei. 

Em meio a toda essa discussão sobre jornalismo, Salomon soltou a frase que escolhi para abrir o post. "Eu acho as pessoas o máximo, por mais filhos da puta que elas possam ser". Acho que esse gosto pela conversa, pelo outro, é um requisito essencial do jornalismo. Espero nunca perdê-lo de vista.  

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Conversa com Lisandra Paraguassú


Por Gabriel Fabri

A primeira conversa do Jornalismo Sem Fronteiras em Brasília com os correspondentes me lembrou muito a primeira da edição de Buenos Aires, com o jornalista Ariel Palacios (a cobertura desse encontro na época gerou um pequeno texto meu intitulado "Adeus, Glamour", publicado em 2012). Por que ambas foram agradáveis horas de conversa que passaram voando, vencendo o cansaço do vôo, da noite mal dormida e do dia corrido. 

Lisandra se empolgou bastante e deu uma verdadeira "aula" de jornalismo e política, a partir das perguntas do grupo. O caso da jornalista, que trabalha na sucursal de Brasília do Estadão, é ainda mais interessante, pois eu pelo menos nunca havia tido o contato com uma jornalista que cobre política externa em Brasília - ainda mais uma que acompanha a agenda presidencial em outros países. 

Ok, descobrimos que cobrir viagem internacional não é muito diferente do que cobrir qualquer evento presidencial em Brasília, só tem menos tempo para comer e dormir. De novo, a lembrança do Ariel Palacios dizendo que correspondente estrangeiro glamouroso, só nos filmes (ou quem sabe eu um dia, mas seria exceção). 



O que deu pra perceber da dinâmica da cobertura da cidade é que tudo aqui depende de um bom relacionamento com as pessoas. Creio que em qualquer outro lugar não seja diferente, mas aqui, com a proximidade com os representantes da sociedade brasileira, fica mais evidente a importância dos contatos com outros jornalistas, com os assessores e com as próprias fontes. Se na faculdade de jornalismo nos mandam ir para a rua, aqui talvez você não ache muitas pautas. A chave do encontro foi: "conversem". No caso dos jornalistas aqui, a conversa é com os poderosos. 

Mas nós, estudantes de jornalismo que ficaremos uma semana por aqui, sem conhecer ninguém, como podemos nos virar? Dando a cara para bater, claro. Lisandra sugeriu ir para o Congresso, procurar os deputados para abordá-los, mesmo sem entrevista marcada. Fontes acadêmicas? Talvez a Universidade de Brasilia tenha alguém para falar. Checar as agendas dos ministros para ver onde eles podem ser abordados, como não pensei nisso antes? Faço isso para marcar entrevistas com cineastas, ver onde eles vão debater os seus filmes, por que não com os políticos?

Lisandra repetiu um dos conselhos mais maravilhosos que já ouvi na faculdade de jornalismo: perguntem. Jornalista pode parecer burro para a fonte, não pode aparecer para o leitor. E só tendo certeza do que você escreve para fazer um bom trabalho. 

Mãos à obra!